Definir a palavra «intimidade» não é simples, e a sociedade em que vivemos tem se encarregado de dá-lhe distintos significados, provocando um problema de semântica. Por exemplo, a Casa Branca fala de «ceias íntimas» de 300 pessoas; os predicadores nos prevêem da «intimidade pré-matrimonial»; a moda de Hollywood nos vende «vestuário íntimo»; e as revistas nos oferecem testes para desenvolver nossas «habilidades para intimar».
Há duas maneiras de despojar de sentido a uma palavra. Uma, dá-lhe um só e único significado. Outra, dá-lhe um significado demasiado amplo e generalizado. Como uma palavra multiusos, que acaba por esvaziar-se de conteúdo. Isto tem acontecido com o conceito de intimidade, que tem sido possuído e domesticado.
Por isso, nossa primeira tarefa nesta viagem não é a de aprender, senão desaprender, já que, muito provavelmente a maioria de nós tem sucumbido ante alguma atrativa imitação da intimidade, que ao final tem resultado cruelmente decepcionante.
Nossa esperança oculta é, todavia, que o entendimento nos libere da ansiedade. Assim que procuramos úteis e breves definições. Assistimos a conferencias, compramos discos compactos e lemos livros. Confiamos que talvez eles nos digam o que precisamos saber. Se pudermos obter algumas definições interessantes, ficaremos satisfeitos. Com os nossos novos conhecimentos convenientemente acomodados na nossa pasta, o tema das relações parece mais manejável, ou menos ameaçante. E se tudo isso falhar, sempre poderemos utilizar esta informação como uma arma. Uma das formas mais fáceis para evadir os nossos próprios temores é projetar nossas limitações nos demais. E podemos fazê-lo com o pretexto de «ajudar»: «olha o que eu sei sobre como devem ser as relações», o que significa «olha o que tenho que te dizer para te ajudar a mudar tua vida», o que se converte em um substituto da nossa própria luta e admissão de nossa própria necessidade.
Há uma sensação de poder e controle quando pensamos que temos definido algoem particular. Dá a sensação de ter chegado a uma conclusão. A ironia, por suposto é que o terreno fértil para a intimidade é a vulnerabilidade, ou a debilidade. A vulnerabilidade é uma postura de abertura. A conclusão (ou controle) é sua antítese. Nesta viagem para as relações será importante identificar aquelas formas em que nos fechamos e mirar as falsas imitações da intimidade às que todos estamos expostos.
Se tal for o caso, então a nossa tarefa inicial não é definir a intimidade (chegar a conclusões) senão liberá-la de definições irreais e enganosas. A mudança e o crescimento não são só assunto de agregar mais informação, mais reflexão, senão de desfazer-se de aquilo que possa resultar falso e enfermo.
A equação entre o Real e o Útil
Nosso problema começa com o fato de acreditar a nossa cultura ocidental quando diz que «nada é suficiente». Como conseqüência, nossa percepção do que é «real» está distorcida. Na nossa cultura, algo é real se tem valor mercantil, se é útil, se tem um uso prático.
Thomas Merton oferece uma analogia que nos pode ajudar. Sentado a sós na floresta com sua lanterna marca Coleman, se confronta com o fato de que Coleman tem construído sua lanterna com uma intenção prática que vai mais além de simplesmente iluminar. A caixa da embalagem indica que a lanterna «alonga os dias para dar mais horas de diversão». E Merton se pergunta: Acaso não posso só sentar-me na floresta sem um motivo especial? E continua dizendo que, de fato, «Não estamos tendo diversão, não estamos "tendo" nada. Não estamos "alongando nos nossos dias", e se tivéssemos diversão, não se mediria por horas. Ainda que no final isso seja o que a diversão parece ser: um estado de excitação difusa que pode ser medida pelo relógio, e ser "alongado" por um aparelho».
Nesta situação, onde o real é definido pelo prático, temos perdido a liberdade. A vida e as relações já não podem se comemorar, só pode vencer-se, conquistar ou manipular.
Em conseqüência, tendemos a perguntar-nos sobre qualquer de nossas relações: De quê me serve neste momento? Ou, quê me aporta? Ou, me faz feliz? Ou, se não tem nenhum valor, para quê mantê-la?
Com esta ilusão acerca da realidade, começamos uma batalha na frente equivocada. A intimidade, como todos os assuntos que tem a ver com o crescimento pessoal, se converte em algo externo.
Esta idéia é a que nos impede contatar com a intimidade (ou nosso ser verdadeiro) porque tendemos a ver as relações desde a nossa postura de controle, assumindo que nós somos os que sabemos, que a vida é cor de rosa e a outra pessoa sempre é a que tem o problema, e onde dois mais dois é sempre igual a quatro. A fórmula sempre funciona. A relação sempre produz o resultado esperado. Queremos que nossas relações sejam como o slogan dos autos Honda: «Se apaixona sem pagar o preço… Este carro se parece muito ao que deseja, te faz feliz sem te pedir nada».
Ganharemos uma melhor perspectiva na batalha quando entendamos aos nossos inimigos. Quais são os obstáculos que nos impedem enfrentar-nos conosco? Quais são as ilusões que permitem dar-nos o luxo de distanciar-nos porque nós «sim entendemos»? Qual é a falsa idéia que nos impede mostrar-nos tal qual somos e poder confiar? Quê há em nós que nos faz procurar redefinir o amor e as relações em termos que resultem mais fáceis de assimilar?
Temos de sinalar, embora, que nesta atração para as falsas idéias sobre as relações, não existe necessariamente uma intenção de enganar, senão melhor a necessidade de proteger-nos em contra do desconhecido, não de maneira calculada e cruel, senão movidos pelo temor. O temor de passar da comodidade ao crescimento, e da seguridade à maturidade.
A necessidade de fugir da Fragilidade
Assim, pois, nosso ser real se oculta e um «eu falso» se mostra em seu lugar. Não é de surpreender que algumas questões em nossa cultura resultem um tabu, como a morte, o sexo, Deus e a alma.
Por quê? Porque estes assuntos desafiam nossa capacidade para manter o controle. Confrontam-nos com a nossa humanidade, a nossa vulnerabilidade, a nossa solidão e a nossa necessidade. Pela mesma razão, evitamos confrontar a presença real que surge no silencio. E nos construímos uma visão do mundo que seja manejável, e aparentemente menos ameaçante. Se formos capazes de conter a vida em áreas como a intimidade e as relações, podemos estar razoavelmente convencidos de que estamos no controle. E podemos evitar, ao menos parcialmente, a inevitável confrontação com a nossa fragilidade, a nossa debilidade, a nossa nudez, a nossa solidão e a nossa escravidão.
Em uma entrevista ao magnata de Playboy vemos uma ilustração da nossa constante necessidade de construir uma proteção contra nossa vulnerabilidade. Em dita entrevista se diz que esta pessoa tem feito o necessário para manter inumeráveis aventuras sem estar nunca cerca do altar. Aos 60 anos, ele estima ter dormido com cerca de mil mulheres sem ter caído no cativeiro conjugal. «Talvez é que estou me volvendo mais romântico», e agrega com um sorriso, «não tenho tido muitas noites solitárias nos últimos 30 anos». Este amo das coelhinhas ainda acredita na inocência, especialmente a sua.
Do mesmo modo nas nossas vidas, se não enfrentarmos as falsas imitações da intimidade que nos espreitam, perpetuamos uma mentira, não com má intenção, mas o resultado é o mesmo: a não autenticidade. Enganou-me a mim mesmo ao acreditar que estou participando em algo que, de fato, estou evitando. Com uma intenção cruel ou calculada? Não. Como fruto do temor? Sim.
Em conseqüência, já não se trata de aprender definições corretas, ou de dominar a habilidade para ser um bom conversador e atrair ao sexo oposto, ou de ser reconhecidos por nossa capacidade de escuta e empatia, ou de obter uma alta pontuação no último teste sobre relações interpessoais. De fato, não é tão fácil como isso. Esta viagem para se volver real começa com a aceitação de um fato difícil: «Fazemo-nos livres na medida em que assumimos e aceitamos que não o somos».
Este é o primeiro passo para o crescimento, para a mudança. Para voltar a casa devemos admitir que estamos longe dela. Para aprender sobre as relações devemos reconhecer as falsas imitações às que nos aferramos.
Que são estas imitações e por que este passo resulta tão difícil? Trata-se de mirar de frente nossas adições e compulsões, nossa voracidade (nunca nada é suficiente), e nossas idealizações bem construídas acerca do que deveria ser a intimidade e as relações autênticas, que levantam uma barreira ao nosso eu real, assim como à possibilidade de um diálogo verdadeiro.
Tais imagens se constroem sobre sistemas de crenças deficientes, ou equaciones incompletas. Em nossa necessidade de cercania e conforto, somos susceptíveis a qualquer quantidade de farsas ou experiências que completem a frase «A intimidade é…».
Adaptado por: Laura Ríos
Tomado de: Hershey, T. (1990). Go Away, Come Closer. EUA. Word Publishing
Há duas maneiras de despojar de sentido a uma palavra. Uma, dá-lhe um só e único significado. Outra, dá-lhe um significado demasiado amplo e generalizado. Como uma palavra multiusos, que acaba por esvaziar-se de conteúdo. Isto tem acontecido com o conceito de intimidade, que tem sido possuído e domesticado.
Por isso, nossa primeira tarefa nesta viagem não é a de aprender, senão desaprender, já que, muito provavelmente a maioria de nós tem sucumbido ante alguma atrativa imitação da intimidade, que ao final tem resultado cruelmente decepcionante.
Nossa esperança oculta é, todavia, que o entendimento nos libere da ansiedade. Assim que procuramos úteis e breves definições. Assistimos a conferencias, compramos discos compactos e lemos livros. Confiamos que talvez eles nos digam o que precisamos saber. Se pudermos obter algumas definições interessantes, ficaremos satisfeitos. Com os nossos novos conhecimentos convenientemente acomodados na nossa pasta, o tema das relações parece mais manejável, ou menos ameaçante. E se tudo isso falhar, sempre poderemos utilizar esta informação como uma arma. Uma das formas mais fáceis para evadir os nossos próprios temores é projetar nossas limitações nos demais. E podemos fazê-lo com o pretexto de «ajudar»: «olha o que eu sei sobre como devem ser as relações», o que significa «olha o que tenho que te dizer para te ajudar a mudar tua vida», o que se converte em um substituto da nossa própria luta e admissão de nossa própria necessidade.
Há uma sensação de poder e controle quando pensamos que temos definido algo
Se tal for o caso, então a nossa tarefa inicial não é definir a intimidade (chegar a conclusões) senão liberá-la de definições irreais e enganosas. A mudança e o crescimento não são só assunto de agregar mais informação, mais reflexão, senão de desfazer-se de aquilo que possa resultar falso e enfermo.
A equação entre o Real e o Útil
Nosso problema começa com o fato de acreditar a nossa cultura ocidental quando diz que «nada é suficiente». Como conseqüência, nossa percepção do que é «real» está distorcida. Na nossa cultura, algo é real se tem valor mercantil, se é útil, se tem um uso prático.
Thomas Merton oferece uma analogia que nos pode ajudar. Sentado a sós na floresta com sua lanterna marca Coleman, se confronta com o fato de que Coleman tem construído sua lanterna com uma intenção prática que vai mais além de simplesmente iluminar. A caixa da embalagem indica que a lanterna «alonga os dias para dar mais horas de diversão». E Merton se pergunta: Acaso não posso só sentar-me na floresta sem um motivo especial? E continua dizendo que, de fato, «Não estamos tendo diversão, não estamos "tendo" nada. Não estamos "alongando nos nossos dias", e se tivéssemos diversão, não se mediria por horas. Ainda que no final isso seja o que a diversão parece ser: um estado de excitação difusa que pode ser medida pelo relógio, e ser "alongado" por um aparelho».
Nesta situação, onde o real é definido pelo prático, temos perdido a liberdade. A vida e as relações já não podem se comemorar, só pode vencer-se, conquistar ou manipular.
Em conseqüência, tendemos a perguntar-nos sobre qualquer de nossas relações: De quê me serve neste momento? Ou, quê me aporta? Ou, me faz feliz? Ou, se não tem nenhum valor, para quê mantê-la?
Com esta ilusão acerca da realidade, começamos uma batalha na frente equivocada. A intimidade, como todos os assuntos que tem a ver com o crescimento pessoal, se converte em algo externo.
Esta idéia é a que nos impede contatar com a intimidade (ou nosso ser verdadeiro) porque tendemos a ver as relações desde a nossa postura de controle, assumindo que nós somos os que sabemos, que a vida é cor de rosa e a outra pessoa sempre é a que tem o problema, e onde dois mais dois é sempre igual a quatro. A fórmula sempre funciona. A relação sempre produz o resultado esperado. Queremos que nossas relações sejam como o slogan dos autos Honda: «Se apaixona sem pagar o preço… Este carro se parece muito ao que deseja, te faz feliz sem te pedir nada».
Ganharemos uma melhor perspectiva na batalha quando entendamos aos nossos inimigos. Quais são os obstáculos que nos impedem enfrentar-nos conosco? Quais são as ilusões que permitem dar-nos o luxo de distanciar-nos porque nós «sim entendemos»? Qual é a falsa idéia que nos impede mostrar-nos tal qual somos e poder confiar? Quê há em nós que nos faz procurar redefinir o amor e as relações em termos que resultem mais fáceis de assimilar?
Temos de sinalar, embora, que nesta atração para as falsas idéias sobre as relações, não existe necessariamente uma intenção de enganar, senão melhor a necessidade de proteger-nos em contra do desconhecido, não de maneira calculada e cruel, senão movidos pelo temor. O temor de passar da comodidade ao crescimento, e da seguridade à maturidade.
A necessidade de fugir da Fragilidade
Assim, pois, nosso ser real se oculta e um «eu falso» se mostra em seu lugar. Não é de surpreender que algumas questões em nossa cultura resultem um tabu, como a morte, o sexo, Deus e a alma.
Por quê? Porque estes assuntos desafiam nossa capacidade para manter o controle. Confrontam-nos com a nossa humanidade, a nossa vulnerabilidade, a nossa solidão e a nossa necessidade. Pela mesma razão, evitamos confrontar a presença real que surge no silencio. E nos construímos uma visão do mundo que seja manejável, e aparentemente menos ameaçante. Se formos capazes de conter a vida em áreas como a intimidade e as relações, podemos estar razoavelmente convencidos de que estamos no controle. E podemos evitar, ao menos parcialmente, a inevitável confrontação com a nossa fragilidade, a nossa debilidade, a nossa nudez, a nossa solidão e a nossa escravidão.
Em uma entrevista ao magnata de Playboy vemos uma ilustração da nossa constante necessidade de construir uma proteção contra nossa vulnerabilidade. Em dita entrevista se diz que esta pessoa tem feito o necessário para manter inumeráveis aventuras sem estar nunca cerca do altar. Aos 60 anos, ele estima ter dormido com cerca de mil mulheres sem ter caído no cativeiro conjugal. «Talvez é que estou me volvendo mais romântico», e agrega com um sorriso, «não tenho tido muitas noites solitárias nos últimos 30 anos». Este amo das coelhinhas ainda acredita na inocência, especialmente a sua.
Do mesmo modo nas nossas vidas, se não enfrentarmos as falsas imitações da intimidade que nos espreitam, perpetuamos uma mentira, não com má intenção, mas o resultado é o mesmo: a não autenticidade. Enganou-me a mim mesmo ao acreditar que estou participando em algo que, de fato, estou evitando. Com uma intenção cruel ou calculada? Não. Como fruto do temor? Sim.
Em conseqüência, já não se trata de aprender definições corretas, ou de dominar a habilidade para ser um bom conversador e atrair ao sexo oposto, ou de ser reconhecidos por nossa capacidade de escuta e empatia, ou de obter uma alta pontuação no último teste sobre relações interpessoais. De fato, não é tão fácil como isso. Esta viagem para se volver real começa com a aceitação de um fato difícil: «Fazemo-nos livres na medida em que assumimos e aceitamos que não o somos».
Este é o primeiro passo para o crescimento, para a mudança. Para voltar a casa devemos admitir que estamos longe dela. Para aprender sobre as relações devemos reconhecer as falsas imitações às que nos aferramos.
Que são estas imitações e por que este passo resulta tão difícil? Trata-se de mirar de frente nossas adições e compulsões, nossa voracidade (nunca nada é suficiente), e nossas idealizações bem construídas acerca do que deveria ser a intimidade e as relações autênticas, que levantam uma barreira ao nosso eu real, assim como à possibilidade de um diálogo verdadeiro.
Tais imagens se constroem sobre sistemas de crenças deficientes, ou equaciones incompletas. Em nossa necessidade de cercania e conforto, somos susceptíveis a qualquer quantidade de farsas ou experiências que completem a frase «A intimidade é…».
Adaptado por: Laura Ríos
Tomado de: Hershey, T. (1990). Go Away, Come Closer. EUA. Word Publishing